A NBC TG 51, alinhada à IFRS 18, muda de forma profunda a estrutura da DRE: passa a exigir novas categorias obrigatórias, subtotais padronizados (como lucro operacional e lucro antes de financiamento e tributos) e regras mais rígidas para indicadores gerenciais, com o objetivo de aumentar transparência e comparabilidade.

Contexto da NBC TG 51 / IFRS 18

A NBC TG 51 trata de apresentação e divulgação das demonstrações contábeis e foi emitida pelo CFC em correlação direta com a IFRS 18.
Ela substitui a NBC TG 26, redesenhando a forma como são apresentados balanço, DRE e demais peças, com foco em informações mais relevantes e que representem fidedignamente ativos, passivos, patrimônio líquido, receitas e despesas.

Para o resultado, o impacto é especialmente forte porque a DRE passa a seguir um formato muito mais estruturado, reduzindo a liberdade excessiva que existia na classificação de receitas e despesas.

Principais alterações na DRE

A grande mudança é a classificação obrigatória das receitas e despesas em categorias padronizadas, seguindo a lógica da IFRS 18.
De forma geral, o resultado terá blocos distintos, como:

  • atividades operacionais (principal fonte de receita da entidade);

  • atividades de investimento;

  • atividades de financiamento;

  • tributos sobre o lucro;

  • operações descontinuadas.

Além disso, a norma introduz subtotais obrigatórios, como:

  • lucro operacional (baseado na categoria operacional);

  • lucro antes do financiamento e dos tributos sobre o lucro;

  • lucro líquido.

Esses subtotais deixam de ser de livre escolha da companhia e passam a ter definição técnica uniforme, o que melhora comparabilidade entre empresas e períodos.

Gestão dos indicadores gerenciais (EBITDA e afins)

Outro ponto importante é o tratamento dos indicadores de desempenho gerencial, como EBITDA ou “lucro ajustado”, quando divulgados em demonstrações ou relatórios que fazem parte das demonstrações financeiras.
A norma exige que esses indicadores:

  • sejam claramente definidos como medidas de desempenho da administração (MPMs, na terminologia da IFRS 18);

  • tenham conciliação explícita com subtotais definidos pelas normas (por exemplo, lucro operacional ou lucro antes de financiamento e tributos);

  • tragam notas explicando critérios de cálculo, ajustes feitos e mudanças ao longo do tempo.

Com isso, esses indicadores passam a ter maior transparência e ficam sujeitos a auditoria, mitigando o risco de “maquiagem” de resultados via métricas alternativas.

Agregação e detalhamento de linhas na DRE

IFRS 18 e NBC TG 51 também trazem princípios mais detalhados sobre como agregar e desagregar informações.
A entidade deve evitar linhas muito genéricas, sendo obrigada a separar itens relevantes sempre que isso aumentar a utilidade da informação para os usuários.
Em contrapartida, itens imateriais ou semelhantes podem ser agregados para não sobrecarregar a DRE com detalhes desnecessários.

Na prática, isso leva a uma DRE:

  • menos “consolidada demais” (sem grandes grupos obscuros);

  • mas também menos poluída, com agrupamentos coerentes e notas explicativas robustas.

Exemplo comparativo de DRE (antes x depois)

Abaixo, um exemplo ilustrativo e simplificado, apenas para mostrar o espírito da mudança.

Estrutura tradicional (antes)

  • Receita bruta de vendas

  • Deduções de vendas

  • Receita líquida

  • Custo das vendas

  • Lucro bruto

  • Despesas com vendas

  • Despesas gerais e administrativas

  • Outras receitas/despesas operacionais

  • Resultado financeiro (receitas e despesas financeiras misturadas)

  • Resultado antes do IR e CSLL

  • IR e CSLL

  • Lucro líquido do exercício

Nessa lógica, cada empresa tinha razoável liberdade para agrupar itens como “outras receitas” ou “outras despesas”, e o “resultado financeiro” aparecia muitas vezes em bloco único, misturando juros de empréstimos, rendimentos de aplicações, variação cambial etc.

Estrutura após NBC TG 51 / IFRS 18 (exemplo conceitual)

Categoria operacional

  • Receita de contratos com clientes (atividade principal)

  • Outras receitas operacionais

  • Custos diretamente relacionados às operações

  • Despesas de vendas

  • Despesas administrativas

  • Subtotal: Lucro operacional

Categoria de investimento

  • Receita de aplicações financeiras não relacionadas à operação principal

  • Ganhos e perdas na venda de ativos de investimento

Categoria de financiamento

  • Despesas com juros sobre empréstimos e financiamentos

  • Outras despesas de financiamento

Subtotal: Lucro antes do financiamento e dos tributos sobre o lucro
Tributos sobre o lucro
Operações descontinuadas (se houver)
Lucro líquido

Nesse modelo:

  • o resultado financeiro é fatiado entre investimento (por exemplo, rendimentos de aplicações não ligadas ao negócio principal) e financiamento (juros de dívidas);

  • o foco do usuário se desloca para o lucro operacional e para o lucro antes de financiamento e tributos, que servem como bases neutras para comparação entre empresas com estruturas de capital diferentes.

Exemplo de tratamento de EBITDA

Suponha que a empresa queira divulgar EBITDA como indicador gerencial. Com a NBC TG 51 / IFRS 18, ela deve:

  • deixar claro em nota que o EBITDA é uma medida de desempenho da administração (MPM);

  • começar a conciliação a partir de um subtotal obrigatório, como o lucro operacional ou o lucro antes do financiamento e dos tributos;

  • adicionar de volta depreciação e amortização, explicitando valores e reconciliação até o EBITDA.

Isso impede, por exemplo, que a empresa chame de “EBITDA” um número que também exclui despesas recorrentes relevantes sem explicar claramente esses ajustes.

Impactos práticos para contadores

Na prática, a principal novidade contábil é que a DRE deixa de ser apenas um “layout obrigatório” e passa a ser uma peça com estrutura conceitual forte, guiada por:

  • categorias bem definidas (operacional, investimento, financiamento, tributos, descontinuadas);

  • subtotais uniformes (lucro operacional, lucro antes de financiamento e tributos, lucro líquido);

  • maior disciplina na apresentação e conciliação de indicadores gerenciais.

Para os profissionais de contabilidade, isso implica:

  • revisão de planos de contas e de rotinas de classificação de receitas e despesas;

  • reconfiguração de relatórios gerenciais e sistemas para gerar a nova DRE;

  • maior atenção às notas explicativas, especialmente para subtotais e indicadores gerenciais.

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